sábado, 17 de janeiro de 2026

15.

 

No momento em que a escuridão da noite deixava, do seu seio, irromper uma luz ainda frágil, ainda ténue, a Criança percebeu que era a altura de regressar ao interior da Casa, onde tinha começado a sua busca por algo indefinível, mas que se traduzia afinal no apaziguamento de uma inquietação. Estava exausta. Olhara para a Casa e vira tudo à superfície, do mesmo modo como, quando se olha para alguém, e se percebe a cor da pele, o formato do rosto, o ondulado ou liso dos cabelos. Mas que aquilo que é verdadeiro, e que se pode expressar como sendo a alma, não se reconhece. Sentou-se, então, numa cadeira, semicerrando os olhos devido à exaustão em que se encontrava. «O que fazer, agora»?, interrogou-se. Fazia-se tarde, se, na verdade, o seu objetivo fosse regressar a Lisboa, antes do dia nascer, e começava a desesperar por encontrar uma resolução para o seu dilema presente. Mas, nem sempre, os sentimentos são confiáveis; e o desespero ou a angústia em que a Criança pensa que está, por um instante, parece dissolver-se.

 

Pressente, pois assim, uma espécie de magia a esconder a realidade, algo que não pode exprimir de uma outra forma por lhe faltarem no pensamento as palavras que melhor traduzam o que está a sentir. Será tudo isto uma ilusão? É o ato de ver que nos faz acreditar na realidade, na vida. Não ver, pelo contrário, representa a ausência de sentido para aquilo que, mesmo estando à nossa volta, disso não nos apercebemos. Será assim também com a morte – mas a morte tem estado com a Criança em todos os momentos da sua existência, na forma das perdas que sempre foi experimentando ao longo da vida. E, talvez por isso, sentia um grande interesse em se encontrar num frente a frente com a morte, como se todo o dia por ela tivesse esperado.

 

Ainda não partira. Ou melhor, ainda não tomara a decisão final sobre o que devia fazer. Falta um par de horas apenas para o dia se definir enquanto dia que amanheceu e, nesta altura da madrugada, tudo na Casa tinha um ar mais misterioso. Apetecia-lhe ficar, como se assim pudesse prever o futuro através de uma mão cheia de recordações. Apetecia-lhe não fazer nada. Podia meditar, se soubesse como o fazer. Mas nada parecia tão genuíno como olhar à sua volta e procurar entender o mistério, tão real como num sonho, das imagens adquirirem o valor de símbolos e a eles podermos atribuir significados. Mas, no fundo, sente-se cansada e parece resignada perante o esforço que lhe está a ser exigido de ter ficado desperta toda a noite. O seu único desejo agora é conhecer o caminho de regresso a um tempo em que pudesse ver a realidade sem os reflexos obscuros do traçado da memória, que tinha vindo a encontrar na Casa.

 

A Criança consegue conservar, ainda assim, algum equilíbrio; através do poder que tem de se conhecer a si própria, não só através da análise de si, como através da análise dos outros. Tudo está, afinal, dentro de nós. E o equilíbrio também. As ideias vão acalmando e mantém-se acordada, como se parte da razão de estar na Casa fosse traduzida na compreensão do amanhã, enquanto momento novo de que possui algum controlo. Mas, afinal, talvez não seja exatamente assim. Talvez o controlo, que é o desejo de nos sentirmos seguros, não possa nunca ser assegurado. E, por isso mesmo, sente que está a adiar uma decisão importante, porque não pode garantir o que será o amanhã nem quais, tão pouco, as circunstâncias da sua vida. Repentinamente, pode-se dizer, o seu mundo vem e vai como um grão de poeira arrastado pelo vento.

 

Voltar à Casa, passados trinta e seis anos, foi, apenas, uma tentativa de tentar repetir uma experiência de vida que passou, que acabou, e que não pode ser renovada. Nem os atores são os mesmos, nem a realidade é igual. A própria Criança já não é mais o que antes fora e a promessa original de porto seguro, longínquo e feliz, não é, porque já não pode ser, a mesma coisa. Tinha sido educada para acreditar que os lugares que habitamos são uma fonte imutável de permanência. E quase era assim. A Casa, à superfície, permanecia igual; mas o espírito do lugar era outro. De resto, esta permanência na Casa começava a pesar-lhe, como se percebesse que num determinado sentido o tempo se estivesse a esgotar e, para além de tudo, não havia nada mais a fazer nem ninguém com quem a Criança pudesse falar.

 

Como se ouvisse um eco longínquo da sua própria voz, a Criança, repete a pergunta inicial, «O que fazer»? «Como sei se é o momento de ficar ou de partir»?, acrescenta. Tudo o que tinha era como um fio invisível que a ligava a um espaço, a Casa, que se traduzia como um hábito, que recuperara de um passado remoto, que não sabe se quer readotar. O movimento de progresso, de avanço, é necessário. E não está livre de dificuldades nem de obstáculos, como afinal também não está deles livre o próprio silêncio interior da Criança. A expectativa de ouvir palavras coerentes na sua mente faz com que a Criança seja interminavelmente paciente para consigo mesma e se conforme com a situação de estar sozinha.

 

Mas, de repente, nada já parece fazer sentido, e a Criança levantou-se da cadeira e deixou-se cair numa cama. Estava cansada. Fechou os olhos. Tinha a respiração descompassada; mas aos poucos profundamente acalmou. A sua mente foi-se tornando mais lenta, e, no sonho mental que estava a ter, sentiu-se suspensa num feixe de luz, que iluminava e clareava a totalidade do espaço à sua volta. Acedia, agora, a uma espécie de eternidade, e os pensamentos e imagens do seu cérebro dissolviam-se absoluta e definitivamente sem deixarem rasto. Este dormir era o que bastava. 

Epílogo: O fio de luz que se quebra

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

14.

Agora escrevo:

 

despida das máscaras da existência,

encontro, neste lugar,

a materialização dos sonhos que são abundantes,

sobretudo, na noite,

quando a presença de mim mesma é o vínculo (o elo),

que une o irreal ao real:

 

de uma forma autêntica, posso dizer:

 

estou aqui:

 

e eu sou a expressão viva de uma continuidade temporal,

que perpassa,

através da sombra dos tempos,

para renovar os laços,

que a vida desfez,

enquanto algoz terrível da condição humana:

 

mas, afinal, aquilo que descubro é que não há distância

entre mim e aqueles que foram

e existiram

com as mesmíssimas dores, amarguras e sonhos também:

 

preciso da palavra inteira,

tal como do inteiro

gesto,

que, tanto agora como no passado,

representam tudo aquilo que é durador

e que não empobrece:

 

há algo de profundamente humano

neste estar aqui:

 

há algo profundamente humano

nesta margem de solidão,

quase fechada à imensidão do mundo,

mas que, apesar de tudo,

é perfeita

na sua forma incompleta de diálogo com o outro;

nada está concluído,

na vida,

o que pensamos ser um fim

revela sempre ter um novo início;

e na solidão também assim é:

 

um silêncio no meio de um pensamento:

 

uma nova ideia que aflora na mente

e que traz

um outro ânimo,

como música desafinada,

que ainda assim encanta e merece louvor:

 

e o caminho

que é genuíno

comporta sempre um ser solitário, sem hesitação nem refúgio,

para podermos abraçar

na vida a nossa memória;

o passado

é na verdade um espelho em que nos vemos

e vemos os outros numa dimensão mais verdadeira,

porque anulamos

as arestas

e o que permanece é apenas o crivo de uma autenticidade

mais pura,

porque subtilizada:

 

pode ser este um momento de transformação,

é este um marco na vida,

quando do longe no tempo fazemos perto

como se passeássemos num jardim

e encontrássemos

um local mágico

que nos permitisse atravessar o portal

que separa as águas do presente das águas do passado:

 

estar agora aqui

representa, justamente, esse caminho feito

na mediação de dois tempos

na sua grandeza

sublime;

e o que importa não é regressar ao início,

mas, sim, entender

o que significa um olhar interior,

para dentro de si mesmo,

sem falsas projeções

num ruturas,

que sempre são horizontes fechados:

 

estou aqui:

 

e, enfim, posso escutar a minha voz autêntica;

a voz que é mais serena,

porque não vive da urgência do mundo;

vale a pena?, interrogo;

mas sei a resposta:

 

se a alma não for pequena, vale a pena:

 

pacifico-me então com a minha história de vida,

reduzida a um fragmento

de tempo ínfimo,

mas que, porque vivido de forma mais intensa,

ganha maior significado:

estou aqui:

 

descubro, neste instante, toda a beleza que existe

numa noite calma e tranquila,

como se o céu estrelado fosse o nosso último reduto

e morada;

e nada mais houvesse a procurar.