15.
No momento em que a escuridão da
noite deixava, do seu seio, irromper uma luz ainda frágil, ainda ténue, a
Criança percebeu que era a altura de regressar ao interior da Casa, onde tinha
começado a sua busca por algo indefinível, mas que se traduzia afinal no
apaziguamento de uma inquietação. Estava exausta. Olhara para a Casa e vira
tudo à superfície, do mesmo modo como, quando se olha para alguém, e se percebe
a cor da pele, o formato do rosto, o ondulado ou liso dos cabelos. Mas que
aquilo que é verdadeiro, e que se pode expressar como sendo a alma, não se
reconhece. Sentou-se, então, numa cadeira, semicerrando os olhos devido à
exaustão em que se encontrava. «O que fazer, agora»?, interrogou-se. Fazia-se
tarde, se, na verdade, o seu objetivo fosse regressar a Lisboa, antes do dia
nascer, e começava a desesperar por encontrar uma resolução para o seu dilema
presente. Mas, nem sempre, os sentimentos são confiáveis; e o desespero ou a
angústia em que a Criança pensa que está, por um instante, parece dissolver-se.
Pressente, pois assim, uma espécie
de magia a esconder a realidade, algo que não pode exprimir de uma outra forma
por lhe faltarem no pensamento as palavras que melhor traduzam o que está a
sentir. Será tudo isto uma ilusão? É o ato de ver que nos faz acreditar na
realidade, na vida. Não ver, pelo contrário, representa a ausência de sentido
para aquilo que, mesmo estando à nossa volta, disso não nos apercebemos. Será
assim também com a morte – mas a morte tem estado com a Criança em todos os
momentos da sua existência, na forma das perdas que sempre foi experimentando
ao longo da vida. E, talvez por isso, sentia um grande interesse em se
encontrar num frente a frente com a morte, como se todo o dia por ela tivesse
esperado.
Ainda não partira. Ou melhor, ainda
não tomara a decisão final sobre o que devia fazer. Falta um par de horas
apenas para o dia se definir enquanto dia que amanheceu e, nesta altura da
madrugada, tudo na Casa tinha um ar mais misterioso. Apetecia-lhe ficar, como
se assim pudesse prever o futuro através de uma mão cheia de recordações.
Apetecia-lhe não fazer nada. Podia meditar, se soubesse como o fazer. Mas nada
parecia tão genuíno como olhar à sua volta e procurar entender o mistério, tão
real como num sonho, das imagens adquirirem o valor de símbolos e a eles
podermos atribuir significados. Mas, no fundo, sente-se cansada e parece
resignada perante o esforço que lhe está a ser exigido de ter ficado desperta
toda a noite. O seu único desejo agora é conhecer o caminho de regresso a um
tempo em que pudesse ver a realidade sem os reflexos obscuros do traçado da
memória, que tinha vindo a encontrar na Casa.
A Criança consegue conservar, ainda
assim, algum equilíbrio; através do poder que tem de se conhecer a si própria,
não só através da análise de si, como através da análise dos outros. Tudo está,
afinal, dentro de nós. E o equilíbrio também. As ideias vão acalmando e
mantém-se acordada, como se parte da razão de estar na Casa fosse traduzida na
compreensão do amanhã, enquanto momento novo de que possui algum controlo. Mas,
afinal, talvez não seja exatamente assim. Talvez o controlo, que é o desejo de
nos sentirmos seguros, não possa nunca ser assegurado. E, por isso mesmo, sente
que está a adiar uma decisão importante, porque não pode garantir o que será o
amanhã nem quais, tão pouco, as circunstâncias da sua vida. Repentinamente,
pode-se dizer, o seu mundo vem e vai como um grão de poeira arrastado pelo
vento.
Voltar à Casa, passados trinta e
seis anos, foi, apenas, uma tentativa de tentar repetir uma experiência de vida
que passou, que acabou, e que não pode ser renovada. Nem os atores são os
mesmos, nem a realidade é igual. A própria Criança já não é mais o que antes
fora e a promessa original de porto seguro, longínquo e feliz, não é, porque já
não pode ser, a mesma coisa. Tinha sido educada para acreditar que os lugares
que habitamos são uma fonte imutável de permanência. E quase era assim. A Casa,
à superfície, permanecia igual; mas o espírito do lugar era outro. De resto,
esta permanência na Casa começava a pesar-lhe, como se percebesse que num
determinado sentido o tempo se estivesse a esgotar e, para além de tudo, não
havia nada mais a fazer nem ninguém com quem a Criança pudesse falar.
Como se ouvisse um eco longínquo da
sua própria voz, a Criança, repete a pergunta inicial, «O que fazer»? «Como sei
se é o momento de ficar ou de partir»?, acrescenta. Tudo o que tinha era como
um fio invisível que a ligava a um espaço, a Casa, que se traduzia como um
hábito, que recuperara de um passado remoto, que não sabe se quer readotar. O
movimento de progresso, de avanço, é necessário. E não está livre de
dificuldades nem de obstáculos, como afinal também não está deles livre o
próprio silêncio interior da Criança. A expectativa de ouvir palavras coerentes
na sua mente faz com que a Criança seja interminavelmente paciente para consigo
mesma e se conforme com a situação de estar sozinha.
Mas, de repente, nada já parece fazer sentido, e a Criança levantou-se da cadeira e deixou-se cair numa cama. Estava cansada. Fechou os olhos. Tinha a respiração descompassada; mas aos poucos profundamente acalmou. A sua mente foi-se tornando mais lenta, e, no sonho mental que estava a ter, sentiu-se suspensa num feixe de luz, que iluminava e clareava a totalidade do espaço à sua volta. Acedia, agora, a uma espécie de eternidade, e os pensamentos e imagens do seu cérebro dissolviam-se absoluta e definitivamente sem deixarem rasto. Este dormir era o que bastava.