quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

14.

Agora escrevo:

 

despida das máscaras da existência,

encontro, neste lugar,

a materialização dos sonhos que são abundantes,

sobretudo, na noite,

quando a presença de mim mesma é o vínculo (o elo),

que une o irreal ao real:

 

de uma forma autêntica, posso dizer:

 

estou aqui:

 

e eu sou a expressão viva de uma continuidade temporal,

que perpassa,

através da sombra dos tempos,

para renovar os laços,

que a vida desfez,

enquanto algoz terrível da condição humana:

 

mas, afinal, aquilo que descubro é que não há distância

entre mim e aqueles que foram

e existiram

com as mesmíssimas dores, amarguras e sonhos também:

 

preciso da palavra inteira,

tal como do inteiro

gesto,

que, tanto agora como no passado,

representam tudo aquilo que é durador

e que não empobrece:

 

há algo de profundamente humano

neste estar aqui:

 

há algo profundamente humano

nesta margem de solidão,

quase fechada à imensidão do mundo,

mas que, apesar de tudo,

é perfeita

na sua forma incompleta de diálogo com o outro;

nada está concluído,

na vida,

o que pensamos ser um fim

revela sempre ter um novo início;

e na solidão também assim é:

 

um silêncio no meio de um pensamento:

 

uma nova ideia que aflora na mente

e que traz

um outro ânimo,

como música desafinada,

que ainda assim encanta e merece louvor:

 

e o caminho

que é genuíno

comporta sempre um ser solitário, sem hesitação nem refúgio,

para podermos abraçar

na vida a nossa memória;

o passado

é na verdade um espelho em que nos vemos

e vemos os outros numa dimensão mais verdadeira,

porque anulamos

as arestas

e o que permanece é apenas o crivo de uma autenticidade

mais pura,

porque subtilizada:

 

pode ser este um momento de transformação,

é este um marco na vida,

quando do longe no tempo fazemos perto

como se passeássemos num jardim

e encontrássemos

um local mágico

que nos permitisse atravessar o portal

que separa as águas do presente das águas do passado:

 

estar agora aqui

representa, justamente, esse caminho feito

na mediação de dois tempos

na sua grandeza

sublime;

e o que importa não é regressar ao início,

mas, sim, entender

o que significa um olhar interior,

para dentro de si mesmo,

sem falsas projeções

num ruturas,

que sempre são horizontes fechados:

 

estou aqui:

 

e, enfim, posso escutar a minha voz autêntica;

a voz que é mais serena,

porque não vive da urgência do mundo;

vale a pena?, interrogo;

mas sei a resposta:

 

se a alma não for pequena, vale a pena:

 

pacifico-me então com a minha história de vida,

reduzida a um fragmento

de tempo ínfimo,

mas que, porque vivido de forma mais intensa,

ganha maior significado:

estou aqui:

 

descubro, neste instante, toda a beleza que existe

numa noite calma e tranquila,

como se o céu estrelado fosse o nosso último reduto

e morada;

e nada mais houvesse a procurar.

 

  

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