14.
Agora escrevo:
despida das máscaras da existência,
encontro, neste lugar,
a materialização dos sonhos que são abundantes,
sobretudo, na noite,
quando a presença de mim mesma é o vínculo (o elo),
que une o irreal ao real:
de uma forma autêntica, posso dizer:
estou aqui:
e eu sou a expressão viva de uma continuidade
temporal,
que perpassa,
através da sombra dos tempos,
para renovar os laços,
que a vida desfez,
enquanto algoz terrível da condição humana:
mas, afinal, aquilo que descubro é que não há
distância
entre mim e aqueles que foram
e existiram
com as mesmíssimas dores, amarguras e sonhos também:
preciso da palavra inteira,
tal como do inteiro
gesto,
que, tanto agora como no passado,
representam tudo aquilo que é durador
e que não empobrece:
há algo de profundamente humano
neste estar aqui:
há algo profundamente humano
nesta margem de solidão,
quase fechada à imensidão do mundo,
mas que, apesar de tudo,
é perfeita
na sua forma incompleta de diálogo com o outro;
nada está concluído,
na vida,
o que pensamos ser um fim
revela sempre ter um novo início;
e na solidão também assim é:
um silêncio no meio de um pensamento:
uma nova ideia que aflora na mente
e que traz
um outro ânimo,
como música desafinada,
que ainda assim encanta e merece louvor:
e o caminho
que é genuíno
comporta sempre um ser solitário, sem hesitação nem
refúgio,
para podermos abraçar
na vida a nossa memória;
o passado
é na verdade um espelho em que nos vemos
e vemos os outros numa dimensão mais verdadeira,
porque anulamos
as arestas
e o que permanece é apenas o crivo de uma
autenticidade
mais pura,
porque subtilizada:
pode ser este um momento de transformação,
é este um marco na vida,
quando do longe no tempo fazemos perto
como se passeássemos num jardim
e encontrássemos
um local mágico
que nos permitisse atravessar o portal
que separa as águas do presente das águas do passado:
estar agora aqui
representa, justamente, esse caminho feito
na mediação de dois tempos
na sua grandeza
sublime;
e o que importa não é regressar ao início,
mas, sim, entender
o que significa um olhar interior,
para dentro de si mesmo,
sem falsas projeções
num ruturas,
que sempre são horizontes fechados:
estou aqui:
e, enfim, posso escutar a minha voz autêntica;
a voz que é mais serena,
porque não vive da urgência do mundo;
vale a pena?, interrogo;
mas sei a resposta:
se a alma não for pequena, vale a pena:
pacifico-me então com a minha história de vida,
reduzida a um fragmento
de tempo ínfimo,
mas que, porque vivido de forma mais intensa,
ganha maior significado:
estou aqui:
descubro, neste instante, toda a beleza que existe
numa noite calma e tranquila,
como se o céu estrelado fosse o nosso último reduto
e morada;
e nada mais houvesse a procurar.
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