quinta-feira, 3 de abril de 2025

5.

            São farrapos de tédio o que a Criança sente neste momento, como se em si mesma assentasse uma roupa já gasta e inútil. E, por um brevíssimo fragmento de tempo, que não poderia nunca precisar, ficou mergulhada num túnel afunilado e comprido, onde ao fundo se divisava uma luz brilhante, com a claridade de um dia belo de verão, e pareceu-lhe ver o rosto da Avó muito jovem. Mas era, afinal, um rosto numa fotografia o que tinha na mão e para o qual olhava fixamente.

 

            Na Casa, encontrara, dentro de uma gaveta de um dos móveis antigos, uma caixa de cartão cheia de fotografias. Eram retratos tirados alguns deles há cerca de cem anos atrás; quando cada fotografia tinha o valor de uma pequena obra de arte, estudada a pose, o cenário e o vestuário dos indivíduos retratados. E ali se testemunhavam as etapas de vida de cada um dos habitantes da Casa, serenos e imóveis, por toda a eternidade. Aquilo que se fixa num papel repercutido por infinitos amanhãs pareceu-lhe ser uma espécie de paisagem visível do passado, alegre ou triste, dependendo de quem a olha. Parecia-lhe uma coleção de imagens do google e, sem legenda, tornava-se muito difícil saber quem era quem e que relação de parentesco havia entre as diferentes pessoas nos retratos – seriam Pais, Irmãos, Tios, Primos, Avós, Bisavós – mas o certo é que à distância no tempo já não era possível identificar todos eles. Talvez também na morte seja assim. Perde-se a personalidade, o que o ser foi, e o que resta é o espírito, o que o ser é.

 

              As fotografias eram, afinal, como que o mapa de uma outra vida. Uma existência anterior à da Criança, que ela já não podia moldar no presente, porque a morte se entrepunha entre ela e todos os seres que agora pertenciam ao passado. Não há uma linha contínua que possa conduzir a Criança neste seu propósito de encontrar uma realidade única. Trata-se, afinal, através dos retratos, de um domínio subtil, que um mistério ensombra; e que é impossível desvendar. Por momentos, pareceu-lhe que teria sido melhor ter deixado as fotografias seladas dentro da caixa fechada, pois não era possível penetrar nesta escuridão, como que acendendo uma vela para iluminar o que antes de si fora. É um cenário desconcertante – os retratos espalhados em cima da mesa de jantar sem um lar, abandonados para sempre na eternidade da sua alma – que a Criança teme, mas que, de certa forma, a prepara para o que a espera também a si, quando não for senão, para os outros, uma imagem anónima numa película de papel, fechada numa caixa de alguém que também, por sua vez, já partira. Antes os ossos como memória, numa fidelidade à vida. Mas, de facto, se ver é o ato supremo da criação, talvez que esta arte do instante desenhe uma infinita realidade que seja o ponto de travessia entre a vida e a morte.

 

            Almoçara há uma hora atrás. Trouxera umas sandes, que comprara no caminho e tinha água. Para já, isto era o bastante; mas precisava de decidir o que fazer no dia seguinte, sábado, portanto, dia propício para se abastecer do que fosse mais necessário. Isto, se o seu propósito for o de ficar durante vinte e um dias. Por enquanto, a Criança não pretende dar sinais da sua presença na Casa às Primas que ainda habitam na aldeia. Trata-se de uma permanência quase furtiva que quer manter até ter uma decisão tomada. De novo, se apercebe, nitidamente, do toque dos sinos. São duas horas da tarde. Os retratos ficaram espalhados em cima da mesa como se fossem os arcanos maiores de um baralho de cartas de tarot. «O que vaticinam»?, interroga-se a Criança. E quase lhe apetece baralhar e dispor num lançamento divinatório aquelas imagens, procurando entender quais podem e devem ser os seus próximos passos na vida. Seria algo como receber a antiga sabedoria de uma tradição através de histórias que lhe fossem contadas pelas fotografias, se ela fosse capaz de desvendar a simbologia de cada uma das figuras.

 

            A verdade da realidade que a Criança está a viver, neste momento, vai muito para além de uma visão meramente materialista do mundo e abre a sua mente para um universo impregnado de consciência e de espírito de vida. Parecia esquecer-se do motivo da sua viagem até à aldeia – saber que destino dar à Casa que recebera de herança. A Casa era como um tesouro sagrado, que continha em si mesma tanto os mistérios da vida como da morte. E, nisso, e, por isso, a Criança se sente transformada, tal como pela ação de uma paixão a sua mente inquisitiva lançasse uma inigualável luz sobre os recantos escondidos da memória, agora que, passados trinta e seis anos, regressava à Casa da aldeia da sua infância e juventude. Era como se se libertasse de uma prisão que durante décadas lhe tivesse tolhido a liberdade e, agora, reencontrasse a coragem para vencer os seus medos. Mas, afinal, o que é que procura?, na verdade. Talvez seja algo que perdeu há muito tempo atrás que é um sentimento de pertença a algo, um milagre de ter um chão e umas paredes caiadas de branco que a acolham como que dizendo, «Tu és uma Criança muito amada e para sempre te protegemos». Contudo, não é isso aquilo que está a sentir desde que chegou. À Casa, perdida por entre o casario da aldeia, falta a luz daqueles que antes a habitaram. A paixão da sua jornada parecia extinguir-se fatalmente condicionada pela frieza do espaço da Casa.

 

            «E se a perfeição das coisas fosse, afinal, este sentimento de abandono e solidão»?, interroga-se a Criança falando em voz alta para si mesma. «E se a perfeição das coisas só existisse quando somos sós»?, «e distantes do que amamos», acrescenta.

 

            Regressou, entretanto, à mesa de jantar onde deixara espalhados os retratos. O que fazer deste espólio que agora lhe pertencia parecia ser o grande desafio do momento. Parou para pensar. Vagamente as mãos da Criança vaguearam de novo pelas imagens, misturando tudo. O melhor seria guardar as fotografias devolvendo-as ao lugar onde as encontrara, dentro da caixa, dentro da gaveta do móvel.

 

            Assim fez, e a Criança pensou, «eis duas caixas fechadas – a da vida e a da morte – o que eu tenho ante mim».

  

sábado, 30 de novembro de 2024

 4.

            Os deuses tecem o manto que é a vida de cada homem. Quando a trama chega ao fim, o ser confronta-se com o mistério da morte. Ninguém sabe o seu dia nem a sua hora de passagem; apenas aqueles que tudo veem conhecem o destino e o momento. Nisto, acreditava a Criança, e, desde há trinta e seis anos, que a sua mente labutava no sonho que tivera, na precisa madrugada da morte da Avó. Fora um sonho incomum, por ser muito nítido e com elementos muito precisos. Habitualmente, os sonhos que tinha desvaneciam-se, quando acordava, perdendo-se a memória daquilo que fora sonhado. Sempre era assim. Mas, naquela madrugada o sonho fora muito diferente. Ficara como uma marca indelével no seu espírito para sempre.

 

            «E, se eu for uma personagem numa história»?, pensa, agora que evoca de novo a grande sala (muito grande, como no espaço de uma catedral antiga com paredes revestidas de madeira escura), onde algumas figuras estão presentes. Primeiro, num plano mais próximo, duas jovens, vestidas de cores claras, executam o entrançado de duas colchas, dispostas no chão. São mantos muito compridos, que vão sendo trabalhados pelas duas raparigas, cada uma delas debruçada sobre a extremidade da sua colcha no chão. Assistindo a este trabalho de execução, num outro plano, mais afastado e mais elevado, encontra-se um padre, sentado numa cadeira alta, e rodeado de acólitos, como que presidindo a esta espécie de cerimónia. Para além destes, está também, distintamente presente, a Criança. Encontra-se no mesmo plano das duas jovens que executam as colchas, numa espécie de cochia lateral de bancos de madeira escura e também ela assiste ao trabalho de execução das colchas que é o motivo central deste episódio. A dado momento, como tendo terminado a sua tarefa, as jovens dizem «tudo está consumado» e a Criança desperta, na madrugada, com um sentimento de que assistiu a um evento muito significativo na sua vida. Este sonho e tudo aquilo que ele contém ficará para sempre consigo; justamente, porque na manhã desse dia o telefone tocou anunciando duas mortes. Morrera a Avó e, inesperadamente também, morrera, nessa mesma madrugada, um Primo. «Por quê, duas mortes quase coincidentes e quase em simultâneo e, aparentemente, sem qualquer espécie de relação entre elas»? Ninguém sabia explicar. A ninguém contou acerca do seu sonho na noite; mas, então muito jovem, teria cerca de catorze anos, não conseguia esquecer este evento como algo que deixou abalada a Criança em termos do aspeto dramático ou quase romanceado da vida - «Se eu não sou a autora da minha história, quem é»?, pergunta-se a si própria a Criança neste momento da sua existência.

 

            A Criança desligara, entretanto, a telefonia e a Casa regressara a um silêncio sepulcral – a mesma espécie de silêncio, acredita, que se terá feito sentir naquela longínqua madrugada, em que a Avó, no sono de uma noite, deixara de ver tecida a história da sua vida para fazer a travessia sagrada. «E foi justo que assim fosse», pensa, «pois é durante a noite, no sonho, que cada um de nós percorre os caminhos da morte». E o momento exato não é um pouco mais cedo nem um pouco mais tarde; é, sim, o instante em que o coração, cruzando uma ténue linha invisível, para, despojado para sempre dos laços e dos afetos que o prendiam à realidade material de uma existência física.

 

            E, agora, vê o seu lugar aqui na Casa, mais uma vez, como o lugar de alguém que percorre o seu tempo terreno, na senda de todos quantos antes dela passaram neste mundo e dele se despediram no espaço destas paredes muito brancas e, pensa, «sempre silenciosas». Mas, ao mesmo tempo, percebe que a realidade atual é de outra natureza. Morrer na Casa não se compadece com o que é mais comum – morrer num hospital – e, nisso, o seu destino final não poderá ser muito diferente do da maioria das pessoas, ligadas a máquinas e a aparelhos eletrónicos que monitorizam a última respiração e a paragem no funcionamento dos órgãos principais. E é bem verdade que ninguém morre de mão dada. A morte é uma experiência individual e apenas pessoal – não admite um «nós». Contudo, e isso era curioso, no sonho longínquo daquela madrugada de há trinta e seis anos atrás, dois mantos se teciam e se concluíam no mesmo exato momento como que fossem tecidos dentro de uma consciência superior que optasse por construir, assim, um destino final coincidente. Era estranha e incomum a aparente mensagem do sonho, e nisso, no seu sentido, não podia, hoje, deixar de pensar.

 

            Mas a morte alarga os limites do espaço até ao infinito – por isso, talvez, que o lugar onde se morre seja relativamente secundário e que o que verdadeiramente tenha importância seja a atitude com que morremos, ou seja, que consciência, ou ausência dela, levamos connosco para a morte. «Tudo será como deve ser», pensa a Criança. «Talvez que no paroxismo da morte a consciência do ser por um instante se eleve a alturas inconcebíveis e que o tempo que aí, então, é substituído pela intemporalidade, nivele na grandeza todos os seres. E, por momentos, os temas mais profundos da existência, como a verdade, a compaixão, o amor, a justiça se tornem equivalentes e indestrinçáveis».

 

            De novo, a Criança ouve o tanger dos sinos da igreja da aldeia. Curiosamente, desde que se encontra dentro da Casa, tornou-se mais audível e sonora cada badalada. Os sinos assinalam com toques diferentes a passagem do tempo e fazem-se soar dia e noite de quinze em quinze minutos. São como um compasso de espera até à hora seguinte. E, na aldeia, há um verdadeiro livro das horas, lembrando a cada um que é o tempo certo de realizar qualquer uma das tarefas do dia ou da noite. É meio-dia e três quartos. É a altura certa para pensar fazer uma ligeira refeição e passar em revista os objetos da Casa e, principalmente, definir aquilo que pretende fazer nas próximas horas, ou nos próximos dias. Não deve esquecer que está no gozo de vinte e um dias de férias e que, deste modo, tudo na sua esfera pessoal é legítimo e permitido. Pode, de facto, ficar na Casa; pode, de facto, regressar hoje mesmo a Lisboa. O que pertencer ao seu destino se há de cumprir, como até hoje se cumpriu cada uma das suas ações. Mas o que é certo é que, pela primeira vez, em trinta e seis anos, se sente completamente livre em termos de escolhas. Nada nem ninguém condiciona a Criança. A ninguém tem de dar conta daquilo que decida fazer neste momento da sua vida. E, nesta forma de liberdade, parece-lhe que tudo será como deve ser e que as suas escolhas serão justas e boas, como se o próprio tempo, ou a sua intemporalidade, lhe sussurrassem «aqui espero».

 

 

sábado, 19 de outubro de 2024

3.

«A rosa que se colhe, passados trinta e seis anos, é a mesma rosa que se deixou na flor da idade»?, a Criança não sabe responder a esta questão; pelo menos ainda não sabe neste momento em que chega à aldeia, depois de uma viagem de cerca de duas horas e em que ficou para trás todo um modo de vida mais recente.

 

Na chegada, a Criança reconhece tudo como igual – a mesma rua íngreme, em descida, e o mesmo casario, casas baixas e silenciosas – e a Casa, uma entre tantas, mas única na singularidade do afeto. O silêncio é agora um outro silêncio; tem uma outra natureza, pois é congeminado pela ausência de todos aqueles que entretanto partiram. E são muitos, quase duas gerações se despediram da vida, deixando um património de valor. É em busca do sentido desse património valioso que a Criança empreendeu esta viagem. Mas que património é esse afinal? Uma Casa, entre tantas, numa pequena aldeia, não tem senão o valor afetivo ou, então, é nisso que reside a sua intenção, a Casa significa para si a raiz da descoberta de um propósito de vida. Ali nasceram e morreram os Avós. Ali viveu uma parte significativa da vida. Ali parece estar a resposta para a sua questão – «qual é o sentido»? A Criança não sai imediatamente do automóvel. Primeiro quer escutar a natureza silenciosa das coisas e observar tudo em seu redor. É, a uma certa distância, que olha para o exterior da Casa para perceber se deve mesmo entrar ou, e cruza um novo pensamento o seu espírito, se não será melhor afinal regressar a Lisboa hoje mesmo. Durante o caminho, a Criança estava cheia de uma certeza, a mesma certeza que lhe dera o impulso para partir. No entanto, agora, na luz da manhã e confrontada pelo silêncio, desvanecia-se essa segurança. Deixa, então, passar o tempo. Passa meia hora. Os seus pensamentos são contraditórios. Na distância do dia anterior, aquando do sonho e da memória, a sua decisão de regressar à Casa parecia certa e justa; agora, contudo, tem de se confrontar com a realidade e a Casa parece-lhe ser apenas um edifício abandonado numa aldeia remota e sem nele encontrar o vislumbre da poesia de que estava revestida nos seus pensamentos e, portanto, sem valor. Mas, sim, deve entrar. Os mortos exigem-lhe esse gesto de respeito.

 

             Dentro da Casa, como seria de esperar, adensa-se o silêncio da rua. Abre a portada de uma janela para deixar entrar a claridade e os raios da luz penetram inundando o espaço que assim se ilumina. Tudo igual. Tudo exatamente igual. Nenhum objeto tinha mudado de lugar. Cada coisa no sítio de sempre. Pensa, então, «a argila da Casa dura tanto quanto os minerais dos ossos». Quase não havia pó. O Pai, ao longo destes anos, contratara o serviço das Primas para a limpeza e manutenção da Casa. E percebia-se que essa era a forma do Pai lidar com a morte; mantendo tudo aquilo que era material cuidado e intacto. Mas, por entre esta imobilidade das coisas, a Criança sentia um frio que era como que um sentimento novo a despertar em si mesma uma diferente memória do passado, que agora era triste e desiludida.

 

            «Aprende a morrer e aprenderás a viver», ou seria antes «Aprende a viver e aprenderás a morrer»?, não se conseguia recordar com exatidão da frase que algures no tempo lera num livro sobre a viagem das viagens; contudo, e todavia, queria-lhe parecer que era indiferente a formulação, pois em qualquer um dos casos estava presente a ideia da vida como justificando a morte ou o inverso, que era igual, a morte como justificando a vida. Nunca como agora, a Criança percebe como é importante esta aprendizagem – aprender a morrer para aprender a viver tanto quanto aprender a viver para aprender a morrer. E os seus mortos pareciam agudamente lembrar-lhe como isso era necessário para compreender o sentido da existência, que era afinal o que trouxera a Criança até à Casa. De facto, a Criança sabia, como qualquer outra pessoa, como sacrificar dez anos de vida para obter um diploma de estudos superiores, tal como sabia como sacrificar muitos mais anos de vida para ter um emprego, um automóvel, ou uma casa; isto era o que era comum a nível do que se aprende na sociedade, aquilo que a sociedade ensina e espera dos indivíduos. O que, neste momento, a Criança quer aprender tem um outro nível de grandeza. E isto a sociedade não é capaz de ensinar. Tem de ser o próprio indivíduo a descobrir por si mesmo: «aprender a viver para aprender a morrer ou o seu inverso». E parecem-lhe auspiciosas na consecução deste seu propósito as palavras que vê num pequeno azulejo branco, com rebordo azul e florido, onde está inscrita a máxima que sempre orientou na vida a Avó, «Tu podes, assim tu queiras». Justamente o alento que precisava estava inscrito na parede da sala da Casa. Parecia-lhe, assim, que tudo estava plenamente certo e ajustado à realidade da sua decisão de responder à grande questão que se apresenta no seu espírito – «qual é o sentido da vida». Ou seja, nada para a Criança é impossível.

 

            Precisa, entretanto, de se conectar com a realidade. A Casa não tem televisão, mas possui uma telefonia antiga. A Criança liga-a, para experimentar se ainda funciona, e é agradável ouvir a voz de um locutor de rádio que passa em revista os principais acontecimentos da semana. É, hoje, sexta-feira, doze de outubro, e a Criança inicia hoje também uma busca interior. O que sabe do mundo não é favorável, a crise social e económica no país e na Europa e a guerra na Síria são algumas das notícias que são transmitidas e que lhe não pacificam o espírito, habitualmente tranquilo, que agora se agita perante o caos no mundo. Mas, afinal, tudo está tão longe neste momento de si mesma e a construção da paz é, como muito bem sabe, um trabalho mais individual do que coletivo. É no seio de cada um que se cultiva um coração mais pacífico que congregado de muitos pode transformar a realidade. «Talvez seja a hora de muitos, na natureza de si, despertarem para uma nova consciência», pensa.

 

            Pega, agora, retirando da parede, no pequeno azulejo com a inscrição e ocorre-lhe que este azulejo funciona para si própria como uma estela maia onde está gravado o que de mais importante é necessário fixar sobre um determinado período de tempo. «Tu podes, assim tu queiras». Convictamente, a Criança corre suavemente os dedos sobre cada uma das letras destas palavras que quer que fiquem gravadas no seu espírito. E nada mais há para acrescentar. «Tu podes, assim tu queiras». E, como pela ação de um mantra que se repete, a mente da Criança encontra nesta ladainha um bálsamo revitalizador para o instante presente. «Tu podes, assim tu queiras». Acorda deste torpor, subitamente, quando, tão perto e tão longe, tangem os sinos da igreja na aldeia, rompendo o silêncio, e a clara luz do meio-dia lembra à Criança que ela está viva no momento presente.


 

         


Parte II: A porta para a luz que se renova

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

2.

«Pelo primeiro outorgante foi dito que, pela presente escritura, doa, livre de quaisquer ónus ou encargos, e por conta da quota disponível, ao segundo outorgante, a Casa. Disse o segundo outorgante que aceita a presente doação nos termos exarados».

 

Outra fora a escritura, há cem anos atrás, quando o Bisavô celebrara o aforamento do terreno, que fazia parte da grande herdade, fronteira ao lugar onde nasceria a aldeia. O número de gerações em que o foro costumava ser estabelecido era três, porém não sucedera assim, e o Bisavô celebrara uma escritura de aforamento perpétuo transmissível à sua descendência legítima. Fora ele o construtor da Casa e como todos os grandes construtores terá tido o sonho de uma certa eternidade que sempre está associada a uma obra, ainda que, no horizonte dos tempos, sempre efémera, como tudo o que é feito com mão humana. Ou talvez não seja bem assim, talvez; lá longe, num Egito de que ele nunca ouvira falar, outros iguais construtores ergueram edificações e preservaram infinitamente corpos: tão infinitamente quanto chega ao ponto das histórias da origem já terem sido esquecidas. E um pouco por todo o planeta, em continentes e ilhas, marcas imemoriais da construção humana são preservadas em densas florestas.

 

«Ah! Mas são construções em pedra maciça»!, diz-lhe o Filho.

 

Serão, sem dúvida, o que muitos entendem ser grandes livros de pedra como picos de altas montanhas tão desiguais da Casa, em alvenaria e taipa, e condenada ao envelhecimento, tanto quanto um homem à sua decrepitude. E para mais sem segredos. Toda a história da Casa está registada em consecutivas escrituras que assinalam mortes e sucessões ao longo do século vinte. E assim, do mesmo modo, a história da família está registada na Casa, quem sucedeu a quem, quem casou com quem, a variação dos nomes e apelidos, e até a ocultação para sempre do dia da morte do Bisavô, que ninguém guardara na memória.

 

Era o outono de dois mil e doze, quando a Criança decide partir de Lisboa para o coração do Alentejo. Não fora uma decisão longamente ponderada. A vontade nascera de um impulso súbito, sentido como necessário. Os mapas e as fotografias áreas eram insuficientes para que a recordação se desenhasse com a exatidão necessária para sentir que a Casa lhe pertencia; que era seu aquele chão que há décadas acolhia as sucessivas gerações, uma após outra, ininterruptamente, até à morte. Por isso, na noite anterior, no dia mesmo em que se celebrara a escritura de doação, sentira uma necessidade aguda de partir, como se, nesse gesto, se simbolizasse a posse.

 

Bastaria fazer uma simples mala de viagem com o mínimo indispensável para a permanência de vinte e um dias. Algumas roupas, objetos de higiene pessoal, um computador portátil, carregadores de baterias, e, sim, como leitura, levaria consigo o Caderno manuscrito da Avó do qual a Criança fora a fiel depositária. O que a levava para longe do seu local habitual de vida fácil e conforto era, sobretudo, um impulso. Mas, ponderando melhor, dir-se-ia que todo o seu percurso de vida a preparara para este momento: o instante de abandonar tudo para procurar conhecer o mistério que é nascer para, fatalmente, morrer um dia. E parecia-lhe, agudamente, que era a Casa e a história da família, que não era senão uma sucessão de nascimentos e de mortes, que lhe dariam as respostas inevitáveis. Como compreender o grande mecanismo da existência? Como desvendar os grandes mistérios? Havia aqueles que perscrutavam os céus, com potentes telescópios ou que, em laboratórios ou em quadros gigantescos, faziam experiências e equações extraordinárias, que poucos entendem, para compreenderem a formulação do mundo. Outros rendiam-se a uma fé contida em sagrados livros e aos conhecimentos que, primeiramente transmitidos de boca a ouvido, eram agora, no dealbar do século vinte e um, publicitados em livros, palestras e conferências. Mas ela, a Criança, escolhia uma via diferente. Escolhia uma via pessoal e intransmissível, escolhia procurar na Casa a compreensão para o grande mistério da existência, o sentido da vida.

 

Esta ideia não lhe ocorrera no instante imediato em que decidira partir. Foi, antes, sendo construída ao longo do trajeto pela autoestrada, que percorria, conduzindo devagar como se tivesse consciência que uma etapa fundamental era justamente esta, a da viagem. O primeiro troço, a Ponte Vasco da Gama. Só aqui teve perceção que abandonava a capital, deixando para trás tudo o que constituía a sua vida presente. E, também aqui, se interrogou se algum dia voltaria. Regressaria, findos os vinte e um dias de férias ou, em alternativa, largava tudo e começava uma nova vida a partir de um novo ponto e de uma nova realidade? O rio Tejo que ia ficando para trás era a fronteira para um Sul que abandonara há trinta e seis anos, os anos da sua vida adulta, e que agora pareciam nada terem acrescentado a si própria; era como se todo o entendimento necessário para a compreensão da existência lhe tivesse sido revelado na infância, e, agora, a ela voltasse, procurando recuperar o todo em profundidade que lhe havia escapado.

Mas foi, definitivamente, a passagem na portagem que marcou o início do seu trajeto para Sul como caminheiro que empreende um trajeto de peregrinação. Lembrou-se da catedral de São Tiago, ponto de chegada de tantos milhares de peregrinos e pensou na Casa, a sua catedral. O seu lugar sagrado. Porque todo o lugar que se ama é sagrado e a Criança tinha amado aquele espaço, que lhe dera abrigo durante tantos anos quantos os da infância. E é essa proteção que todo o peregrino procura, quando inicia um trajeto, é o ponto de chegada que o move e lhe dá alento para avançar, apesar das dificuldades com as quais se possa deparar. Ainda que o ponto de chegada possa ser uma miragem de um sonho que se constrói ao longo de uma vida. Talvez fosse isso mesmo que se passasse com a Criança. Talvez que, ao cruzar a portagem, antevisse a Casa na sua singularidade perdida de lar perfeito, porque habitado pelas Avós, hoje mortas. Talvez que, afinal, fosse um equívoco aquilo que a movia em direção a Sul.

 

Depois da primeira placa de desvio para Évora, parou numa estação de serviço. Precisava de andar um pouco, tomar um café e sentar-se a refletir. Na verdade, desde à noite, no dia anterior, ao serão, que ainda não pensara exatamente sobre o que ia fazer. Fora tudo muito rápido. Mandara a mensagem ao seu chefe e fizera a mala. Mal conseguira dormir. Apenas umas quatro ou cinco horas para repousar e, logo de madrugada, mal nascera o dia, descera para a garagem a preparar o carro e fora abastecer-se de gasolina. Pusera-se à estrada. O caminho estava fixado na sua memória como algo que não pode jamais ser apagado, embora já não fizesse o trajeto há décadas. Desde a morte da Avó que não tornara a visitar a Casa, que permanecera desde então fechada. Por isso, pareceu-lhe acolhedor aquele local de paragem no vazio cinzento de uma autoestrada onde quase se não cruzara com outros automobilistas. «Tanta estrada e tão pouca gente», pensara a Criança, mas agora, na estação de serviço, estão estacionados seis ou sete automóveis e há algum movimento de pessoas na zona da cafetaria e da esplanada. Pediu um café, sem açúcar, e sentou-se também no exterior, numa mesa contígua a uma família em viagem. São espanhóis, nota-se, sobretudo, por uma outra vivacidade na entoação da língua, que no português é mais densa e melancólica, e por um gesticular vivo no acompanhamento da linguagem. «É este um povo aguerrido», pensa. E, então, surge-lhe uma recordação muito clara da boa disposição das Avós e dos ditos divertidos, apesar de uma vida tão pobre e tão sacrificada.

 

Passados não mais do que cinco minutos, a família estrangeira partiu, num arraial de alegria, ficando a Criança sozinha na esplanada. Pôde então observar melhor o espaço, resguardado da beira da autoestrada, e, nos largos vasos de barro e nas plantas, pôde descobrir já uma feição característica da província alentejana. Estava um dia de céu claro e havia um vento outonal que ainda não era demasiado frio. Pensou então, «Vinte e um dias para tomar uma decisão. Vinte e um dias para decidir o que fazer com a Casa; o que fazer com a minha vida? Vinte e um dias para recuperar todo um passado inteiro. Vender a Casa? Recuperar a Casa? Reconstruí-la? Deixá-la abandonada?». Era como se, nestes vagos pensamentos repetitivos, a Criança procurasse estabelecer um elo entre a súbita decisão da partida e o ponto de chegada. Mas, no fundo, quando decidira partir não estava em causa o fazer mas sim o ser. Era a procura consciente de si mesma no espaço da Casa a razão da sua decisão. Na verdade, este regresso era sobretudo um regresso no tempo e não no espaço. Justamente o que não sabia se era possível de realizar. Mas trouxera consigo o Caderno manuscrito da Avó, e seria através dele que se iria guiar. E lembrou-se de um primeiro registo, dissera uma vez uma cigana à Avó que ela atravessaria duas vezes o Tejo.

 


 

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

1.

Às vezes, pensara que a Casa tinha raízes fundas que mergulhavam na terra. E, por isso, imaginara, num mapa do subsolo, os caminhos escondidos, que atravessavam a aldeia, cruzando veios de água, sílica, areias, vários minerais, e matéria orgânica capaz de manter a estrutura da Casa na superfície. Sem uma fratura, as paredes da Casa ostentavam a força de um tronco de árvore centenário, abandonado às inclemências dos rigores das estações, que vivificava dando abrigo. Era, assim, para a Criança, a Casa um todo orgânico que se confundia com a paisagem em redor de outras casas idênticas, de largas paredes de taipa, preenchidas por xisto, areia, barro, palha amassados e caiada de um branco brilhante, refratário, que iluminava até na escuridão dos dias mais cinzentos do ano.

 

Hoje, passados tantos anos, os mapas que a Criança observa são os da superfície dos terrenos, e a Casa, vista na fotografia aérea, tirada nos anos sessenta, é, no cinzento da cor, uma mancha exatamente retangular desprovida da ligação ao subsolo. O movimento que dá vida não está inscrito na fotografia; onde a Casa povoada e habitada pelas gerações da família até si?, que labutaram na construção como quem semeou, nos campos, o trigo e o ceifou na reminiscência do pão diário que é o suor da vida. E inorgânica, a imagem, que tem nas suas mãos, não lhe permite revisitar o passado real da Casa, obscurecido pela distância a que se encontra no espaço físico e pelos anos distantes de uma memória que tecia engenhosas fantasias, alimentadas pelas histórias de ouvir contar que as Avós tão bem conheciam.

 

 A street view do Google Maps não chegou ainda à aldeia alentejana para que a Criança lhe possa explorar os recantos mais atuais e, sobretudo, olhar para a Casa que acaba de herdar, tentando reconhecer nela a presença de si mesma enquanto a habitante para sempre mais jovem. A fixação da imagem da Casa num tempo recente torna-se impossível. O recurso à tecnologia mais atual apenas permite definir o trajeto retilíneo até à aldeia e observar, no ecrã do computador, o mesmo retângulo informe do telhado, recolhido mais recentemente por imagens de satélite. E, num determinado sentido, pensa, «como tudo é tão estranho: a distância da profundidade das raízes encontra-se ao nível das imagens feitas do Céu, tentando ambas fixar a Casa, um na medida do universo onírico que recria com inexatidão a vida, outro na medida do despontar da técnica que regista com exatidão a realidade». Entre um e outro, a mente da Criança oscila como na oscilação de uma cadeira de baloiço, procurando perscrutar a sua mente e, ao mesmo tempo, tentando encontrar, nos elementos físicos de registo, os pedaços exatos que vêm complementar uma memória fragmentada construída pelas conversas ouvidas, nos serões, junto à lareira e que agora serve para recartografar a história, no presente, como se desenhasse um mapa não do espaço mas do tempo.  

 

A Criança recorre, por isso, à memória, para desenhar a aldeia no campo visual da sua mente. Se vista do Céu, sem zoom, esta é apenas um pequeno ponto indefinido num largo desconcerto de planície despovoada; mas, na recordação que guarda, ela parece erguer-se toda, como um vértice geodésico, para além do extenso terreno que a cerca, na correnteza de um fio de estrada muito longo e estreito. É, sem dúvida, uma finisterra, sem cabo de mar, abandonada no coração das cercanias alentejanas, mergulhada na profunda solidão dos campos. Parece-lhe, agora, assim, uma espécie de infinito que não se pode tocar, e aquela distância, percorrida na estrada principal até chegar à aldeia, é como se fosse um caminho de existência, em que como peregrinos avançamos, desconhecendo o traçado. Contudo, embora previsível, a estrada retilínea, dá suporte à Criança para a divagação e o sonho. Sonhar durante o trajeto e o caminho, todo ele agora contido no pensamento. Sonhar as raízes secas ao sol na terra esventrada, lado a lado com as reses dolentes, que dormitam à sombra dos raros sobreiros e azinheiras dispersos no montado. Fazer a estrada é chegar à aldeia como viajante intrépido e ver, na primeira curva do caminho, a Casa que não se distingue do conjunto do casario todo ele de um branco lavado, inocente e puro.

 

E entre a memória dos campos, da aldeia e da Casa e a realidade que hoje será, sobrepõe-se o agudo avanço de uma civilização citadina e litoral, a mesma onde há tantos anos a Criança vive, mergulhada no ritmo do advento de tudo o que é eletrónico e imediato; mergulhada no bulício daquilo que se move instantaneamente, o telecomando da porta da garagem do prédio, o telecomando dos estores da casa, o telecomando do televisor e do aparelho de rádio, o milagre da técnica do computador e do gps e, acima de tudo, o bulício do emprego, onde se sente como mais um elo desta cadeia de automatismos de manhã até ao entardecer. A curiosidade que sente pela Casa e pela aldeia, desde que o Pai lhe fizera a doação de herança da habitação, é imensa, procurando saber até que ponto é viva e real a sua memória, na distância de trinta e seis anos, qual porto seguro e imutável que permanece na lembrança.

 

O sentimento desse porto seguro, que está lá, algures, meio perdido numa planície longínqua, é como um reino misterioso que se procura, sem achar, é como uma Nova Atlântida descoberta num mar, é como uma utopia verdadeira que a Criança guarda em si mesma como um sonho real e vivido. De alguma forma no povoamento dos seus sonhos, habita-os a recordação de um apogeu civilizacional, organizado e justo, feito à medida de quem vive ao ritmo das estações e do movimento dos dias, e o isolamento não é senão a marca que preserva a identidade de uma sociedade fraterna. A aldeia foi no passado o seu centro do mundo, livre de injustiças sociais e onde cada um labutava na medida das suas capacidades e aptidões, não desejando senão o sustento diário para uma vida condigna. Talvez outros vissem nisto uma forma de pobreza, mas a Criança recorda apenas que tinha alegria e pão e sabedoria em todos os momentos do dia. Tudo o que fora essencial para o seu crescimento. Habitara no berço de uma harmonia absoluta, qual profecia milenarista de uma utopia social. Por isso, perscruta a Criança os mapas para tentar obter um sinal desta utopia que traz na memória. A paz que se eterniza numa tarde que passa lenta, num dia que corre sem sobressaltos, numa existência feliz. O cúmulo da felicidade possível, estava todo ali concentrado naquele ponto minúsculo, se visto do Céu, mas que se estendia no espaço da sua memória em ruas estreitas, em casas e em gentes como um oásis refrescante no meio de uma paisagem deserta. O reino em que vivera e habitara durante catorze anos, poderia ser recuperado? Estaria ele ali ainda intacto, ou a civilização ocidental teria destruído esta que fora a sua última realização?

     

Quer acreditar que não. Por isso, a Criança, sem hesitar, pega no telemóvel e envia uma simples mensagem ao seu chefe de gabinete: «Por motivos pessoais, antecipo o período de vinte e um dias de férias, a gozar a partir de amanhã».




Parte I: Um ténue fio de luz