5.
São
farrapos de tédio o que a Criança sente neste momento, como se em si mesma
assentasse uma roupa já gasta e inútil. E, por um brevíssimo fragmento de
tempo, que não poderia nunca precisar, ficou mergulhada num túnel afunilado e
comprido, onde ao fundo se divisava uma luz brilhante, com a claridade de um
dia belo de verão, e pareceu-lhe ver o rosto da Avó muito jovem. Mas era,
afinal, um rosto numa fotografia o que tinha na mão e para o qual olhava
fixamente.
Na
Casa, encontrara, dentro de uma gaveta de um dos móveis antigos, uma caixa de
cartão cheia de fotografias. Eram retratos tirados alguns deles há cerca de cem
anos atrás; quando cada fotografia tinha o valor de uma pequena obra de arte,
estudada a pose, o cenário e o vestuário dos indivíduos retratados. E ali se
testemunhavam as etapas de vida de cada um dos habitantes da Casa, serenos e imóveis,
por toda a eternidade. Aquilo que se fixa num papel repercutido por infinitos
amanhãs pareceu-lhe ser uma espécie de paisagem visível do passado, alegre ou
triste, dependendo de quem a olha. Parecia-lhe uma coleção de imagens do google
e, sem legenda, tornava-se muito difícil saber quem era quem e que relação de
parentesco havia entre as diferentes pessoas nos retratos – seriam Pais,
Irmãos, Tios, Primos, Avós, Bisavós – mas o certo é que à distância no tempo já
não era possível identificar todos eles. Talvez também na morte seja assim.
Perde-se a personalidade, o que o ser foi, e o que resta é o espírito, o que o
ser é.
As fotografias eram, afinal, como que o mapa
de uma outra vida. Uma existência anterior à da Criança, que ela já não podia
moldar no presente, porque a morte se entrepunha entre ela e todos os seres que
agora pertenciam ao passado. Não há uma linha contínua que possa conduzir a
Criança neste seu propósito de encontrar uma realidade única. Trata-se, afinal,
através dos retratos, de um domínio subtil, que um mistério ensombra; e que é
impossível desvendar. Por momentos, pareceu-lhe que teria sido melhor ter
deixado as fotografias seladas dentro da caixa fechada, pois não era possível
penetrar nesta escuridão, como que acendendo uma vela para iluminar o que antes
de si fora. É um cenário desconcertante – os retratos espalhados em cima da
mesa de jantar sem um lar, abandonados para sempre na eternidade da sua alma –
que a Criança teme, mas que, de certa forma, a prepara para o que a espera também
a si, quando não for senão, para os outros, uma imagem anónima numa película de
papel, fechada numa caixa de alguém que também, por sua vez, já partira. Antes
os ossos como memória, numa fidelidade à vida. Mas, de facto, se ver é o ato
supremo da criação, talvez que esta arte do instante desenhe uma infinita
realidade que seja o ponto de travessia entre a vida e a morte.
Almoçara
há uma hora atrás. Trouxera umas sandes, que comprara no caminho e tinha água.
Para já, isto era o bastante; mas precisava de decidir o que fazer no dia
seguinte, sábado, portanto, dia propício para se abastecer do que fosse mais
necessário. Isto, se o seu propósito for o de ficar durante vinte e um dias.
Por enquanto, a Criança não pretende dar sinais da sua presença na Casa às
Primas que ainda habitam na aldeia. Trata-se de uma permanência quase furtiva
que quer manter até ter uma decisão tomada. De novo, se apercebe, nitidamente,
do toque dos sinos. São duas horas da tarde. Os retratos ficaram espalhados em
cima da mesa como se fossem os arcanos maiores de um baralho de cartas de
tarot. «O que vaticinam»?, interroga-se a Criança. E quase lhe apetece baralhar
e dispor num lançamento divinatório aquelas imagens, procurando entender quais
podem e devem ser os seus próximos passos na vida. Seria algo como receber a
antiga sabedoria de uma tradição através de histórias que lhe fossem contadas
pelas fotografias, se ela fosse capaz de desvendar a simbologia de cada uma das
figuras.
A
verdade da realidade que a Criança está a viver, neste momento, vai muito para
além de uma visão meramente materialista do mundo e abre a sua mente para um
universo impregnado de consciência e de espírito de vida. Parecia esquecer-se
do motivo da sua viagem até à aldeia – saber que destino dar à Casa que
recebera de herança. A Casa era como um tesouro sagrado, que continha em si
mesma tanto os mistérios da vida como da morte. E, nisso, e, por isso, a
Criança se sente transformada, tal como pela ação de uma paixão a sua mente
inquisitiva lançasse uma inigualável luz sobre os recantos escondidos da
memória, agora que, passados trinta e seis anos, regressava à Casa da aldeia da
sua infância e juventude. Era como se se libertasse de uma prisão que durante
décadas lhe tivesse tolhido a liberdade e, agora, reencontrasse a coragem para
vencer os seus medos. Mas, afinal, o que é que procura?, na verdade. Talvez
seja algo que perdeu há muito tempo atrás que é um sentimento de pertença a
algo, um milagre de ter um chão e umas paredes caiadas de branco que a acolham
como que dizendo, «Tu és uma Criança muito amada e para sempre te protegemos».
Contudo, não é isso aquilo que está a sentir desde que chegou. À Casa, perdida
por entre o casario da aldeia, falta a luz daqueles que antes a habitaram. A paixão
da sua jornada parecia extinguir-se fatalmente condicionada pela frieza do
espaço da Casa.
«E se
a perfeição das coisas fosse, afinal, este sentimento de abandono e solidão»?,
interroga-se a Criança falando em voz alta para si mesma. «E se a perfeição das
coisas só existisse quando somos sós»?, «e distantes do que amamos»,
acrescenta.
Regressou,
entretanto, à mesa de jantar onde deixara espalhados os retratos. O que fazer
deste espólio que agora lhe pertencia parecia ser o grande desafio do momento.
Parou para pensar. Vagamente as mãos da Criança vaguearam de novo pelas
imagens, misturando tudo. O melhor seria guardar as fotografias devolvendo-as
ao lugar onde as encontrara, dentro da caixa, dentro da gaveta do móvel.
Assim
fez, e a Criança pensou, «eis duas caixas fechadas – a da vida e a da morte – o
que eu tenho ante mim».