domingo, 7 de setembro de 2025

10.

Agora escrevo:

 

escuto o tempo,

na delicadeza da noite, procurando

conhecer o futuro, como quem sabe de antemão as misérias e os sucessos

que são a dádiva do devir:

 

jornada do silêncio,

no milagre da vida diária, a que nos acostumamos,

e que dizemos,

por isso, que é banal – um sorriso

a um desconhecido na rua, um gesto de amor

para consigo mesmo, uma pausa no meio de uma tarefa difícil – e que precisa de encanto:

 

e quem se olha ao espelho percebe

que, de entre as imperfeições

do rosto, há uma beleza

própria,

única,

singular,

que é irrepetível

tal como no curso uma própria vida:

 

que vida haverei?,

serão os meus sonhos futuros

iguais aos meus sonhos de hoje?:

 

ou tudo não passará

de uma única

ausência de mim na trama da existência?:

 

limite firme do presente

é essa linha intransponível, qual cortina de névoa,

ou de sombra,

que não nos permite saber o que virá a ser no amanhã;

mas há algo sereno em mim

que aguarda

por esse tempo que não conheço,

fulgurante, mas velado,

que desabrocha, sem pressa de ser:

 

há algo de íntimo no coração da noite, que se apropria de nós,

e me conduz em direção ao próprio mundo

como se um quintal

fosse a esquina de uma rua

ou o largo de uma avenida no meio duma cidade deserta,

e, imóvel,

eu pudesse encontrar nesse silêncio

a voz que anuncia em oráculos o tempo vindouro:

 

bem sei que este momento é efémero:

tudo passa:

 

e eu sinto-me espectadora deste espetáculo que é a vida,

como se assistisse a um desenrolar

de acontecimentos,

estranhos a mim,

sem poder sequer comover-me,

porque no palco do mundo tudo o que me desassossega

são sentimentos,

cujo centro está fora de mim;

e eu escolho sentir apenas uma quietude imóvel

e triste

perante a diversidade da existência:

 

o cunho da sensibilidade que me rege permite-me, contudo,

perceber a beleza

intensa

da noite do dia seguinte a este,

em que

estarei acometida da razão

a viver a golfadas cada momento novo,

como se esta mesma noite nunca tivesse existido,

senão enquanto sonho da mente

numa lembrança para sempre distante:

 

talvez me despeça,

um dia,

de todas as memórias e deixem de haver quaisquer lembranças;

talvez me acometa

a vertigem própria dos dias vividos sem a espera

pelo amanhã,

sem o sonho vívido do futuro,

sem o anseio por algo novo e inesperado:

 

mas esse tempo ainda não chegou;

essa noite que virá,

depois desta,

ainda está no limbo das horas que hão de ser

também elas mortalha de outras noites:

 

por isso, não adormeço,

acorda-me

a necessidade premente de pensar

que se estou aqui

é porque é esse o lugar aonde eu devo estar;

e também não me quero despedir,

num adeus que encerra

uma vida,

porque, na dádiva do tempo que temos para viver,

o silêncio volta a nós, uma vez e outra vez e outra, desafiado

por uma presença suave

de quem se demorou mas regressa por trilhos novos,

e tantas vezes inesperados:

 

há, contudo, uma dor inusitada neste esfarelar

do tempo, na noite, qual côdea

que mastigamos

para mitigar uma fome

e que nos contempla, demoradamente, como se todo o universo

nos olhasse do alto e do alto nos escutasse

também a nós.

  

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

9.

Agora escrevo:

 

o anjo bom

mitiga a sede da minha alma, agora que na noite

eu procuro os vestígios mais claros do amor em cada passo que eu dou,

e, como uma borboleta que poisa numa mão humana

fechada e abandonada,

nesses caminhos da vida,

também eu quero voar e poisar nesse rochedo,

no centro de um coração, onde, pequenina como uma flor,

singelamente,

eu possa permanecer como numa eternidade, sem medo:

 

do que sentes saudade?, interrogo-me

sem saber

porque o perguntei:

 

não penso num lugar em particular,

nem num momento vivido,

e respondo:

 

do amanhã, como se nesse vazio de ser ainda

estivesse já contida, com segurança, uma medida do passado:

 

lembrança do vir a ser:

momentânea, atómica, vivida a cada momento, vivida a cada instante,

o que será e já deixou de ser:

 

sim:

 

não há hiatos de vazio – a saudade é um contínuo modo de estar –

é um labirinto sem saída senão a da morte:

 

por isso, entendo que o amor que eu procuro é um silêncio

feito de respiração apenas e dele sinto

a saudade do que não vivi,

porque não aconteceu esse tempo de ser,

mas, na memória da imaginação,

revisito o dia e a hora

e o lugar

onde floresce o amor:

 

invisível movimento de maré imprevista:

 

posso esculpir

naquele rochedo que toquei

o verso que amanhecerá o amanhã

sempre tíbio

do cuidado que colocamos na construção do amor,

como quando numa conversa nos inquietamos com aquilo

que falamos

por receio de não ser exato o que dizemos

enquanto expressão de nós mesmos:

 

mas a dança da vida

não permite que ensaiemos os passos e cada um de nós se deve entregar

ao movimento que advém da passagem do tempo – sem amanhã

que seria a saudade que tenho agora

desse momento e lugar

que toca uma parte íntima de mim? –

mas a dança da vida

possui o rasgo extraordinário de fazer acontecer a esperança saudosa

que,

sem contradição,

nos permite pressentir o que está para vir:

 

mas hesito

no vínculo do desejo:

 

o amor que procuro talvez não seja senão aquilo que ilude

entre dois gestos – o querer e o ter –

e se apaga como uma vela que uma ligeira brisa desvanece

antes que se cumpra,

no tempo,

um passado de memória:

 

é esta a sombra:

 

é esta a obscuridade:

para além do amor, nada mais tem a forma exata

e delicada

do cuidado que colocamos a procurá-lo,

do cuidado que é raiz

de árvore,

que nutre e alimenta,

que sustenta:

 

e, então, por maravilha, a noite enche-se de luz:

 

há uma ausência, mas o universo

responde

à minha sede, transbordando em claridade:

 

dissiparam-se as nuvens

e eu recomeço sem pressa

a busca subtil,

que é afinal a escuta do meu coração.

 

 

 

  

Parte III: A porta para a luz que sempre brilha

segunda-feira, 7 de julho de 2025

 8.

              É noite já. Na rua, acenderam-se as luzes da iluminação pública e há como que uma claridade vinda de fora que invade o interior da casa como se um clarão dos céus, o luar e as estrelas, estivesse tão perto de si que fosse quase possível sentir na pele o calor dessa luz. E a Criança sente-se, neste momento, como se sozinha estivesse a olhar para o mundo e mais ninguém, senão si mesma, pudesse observar esta realidade dos astros, cuja luz está como que aprisionada dentro do espaço onde também a Criança se encontra e tudo fosse, tão só e apenas, um universo de possibilidades.

 

            Mas a Casa já mostrou tudo à Criança; tudo aquilo que podia ser visto foi visto – requer-se, entretanto, um outro entendimento para que a sua viagem não tenha sido em vão. A Criança retira, então, da sua pequena mala o Caderno da Avó que lhe fora entregue pelo Pai há trinta e seis anos. Ao longo destes anos, não raro, folheava o Caderno e lia os apontamentos breves que narravam uma história de vida martirizada por sofrimentos e dores que a Criança nunca conhecera na sua existência, poupada que tinha sido a um tempo em que o suor do rosto pagava a côdea e a migalha de pão a pais e filhos. Dispõe-se, então, a ler de novo estas páginas manuscritas, que o tempo ainda não apagou, e encara este exercício de leitura como um último impulso para entender o intervalo que separa quem lê de quem escreve. Viagem no tempo, que não tem poder sobre o fluxo da sua vida, pensa a Criança, porque estas feridas antigas não lhe pertencem.

 

            A noite está calma e agradável. O vento da tarde desapareceu por completo e a aragem que se faz sentir é suave e convidativa a um serão passado no Quintal da Casa. É, justamente, essa a decisão que a Criança toma. Abre a porta para o Quintal, perfeitamente iluminado pelas lâmpadas dos candeeiros da rua, e percebe que pode ler sem dificuldade a escrita da Avó.

 

            Os apontamentos no Caderno são perfeitamente triviais e a Criança percebe que no fim da jornada da vida não existe nada que deixemos aos outros que tenha qualquer relevância. Ou seja, as coisas só fazem sentido e só têm significado, quando existe uma sintonia entre o ser e o ato. Quando essa sintonia acaba, nomeadamente quando se morre, o que fica de material é pouco ou nada relevante para os outros. Para a Avó, aquele Caderno fora uma espécie de tesouro que guardara em vida como testemunho do ato de ser quem era; mas, na verdade, só para ela mesma essa criação entrava no campo da consciência. De facto, o ato criativo principal, sendo um mistério, a ele apenas tem acesso o criador; o outro, aquele que observa a obra, vive num intervalo de tempo em que não é possível que a consciência brote numa dimensão idêntica. Por isso, essas feridas antigas da Avó são para a Criança, hoje, dores aprisionadas num passado do qual ela não tem, porque não pode ter, a consciência perfeita.

 

            O Caderno é, na verdade, uma espécie de última morada de alguém que escolheu deixar um legado ao mundo através da palavra. Mas, o devido lugar de um homem ou de uma mulher é primeiro aqui na terra; querer aceder ao tempo eterno da eternidade é um exercício de imaginação e o Caderno é como que a visão profana que a Avó tinha da imortalidade. Na verdade, tudo é como deve ser; e o Caderno não durará o suficiente para satisfazer esse anseio da Avó, porque, hoje em dia, são as redes sociais e é a internet que confere ao homem a visibilidade necessária para eliminar a convicção, verdadeira contudo, de que somos seres em desagregação e que a nossa passagem pela vida é demasiado breve e insignificante.

 

            A Criança fecha o Caderno. Não quer regressar àquelas dores. É este um caminho que está consciente que não quer percorrer. Contudo, para tomar essa decisão, precisa de calcorrear uma outra estrada, fazer uma nova vida a partir do nada. Como é isso possível?, interroga-se, se o impulso da Criança foi regressar à Casa, como que para recuperar a memória do passado, de modo a torná-la viva no seu presente. É esta a miséria e a grandeza da sua ação. Precisa, então, de atribuir valor a esta ação para que tudo mude em si. Se a desvalorizar, o contrário também sucederá. É a projeção que cria o significado. E parece entender, agora, a Criança que projetou uma fantasia na ação deste dia – a viagem não foi mais do que desenvolver um processo insensato, que pôs em marcha impetuosamente com uma urgência sem sentido. Não quer, por isso mesmo, abalar, partir, num impulso súbito. Tem tempo para pensar. E é isso que fará. Trouxe consigo o computador pessoal. Irá escrever. Irá meditar. O tempo dura o suficiente para compor uma reflexão. E, então, neste momento, a Criança viu que o rasto de tristeza tinha desaparecido como uma onda, numa praia, desfeita em espuma.

 

sábado, 7 de junho de 2025

7.

            Na realidade, de facto, a Criança tem estado cheia de uma tristeza solitária e secreta – tristeza que não anuncia sequer a si própria - , mas que, na verdade, não era assim tão má; pois fazia parte da sua natureza melancólica. E, no fundo, era até bastante agradável estar sozinha a observar cada coisa no interior da Casa, com um olhar que descobria em cada detalhe um sentido novo. E cada coisa exercia em si um fascínio triste ao qual se rendia.

 

            Uma grande obra como começa? É moldada em barro ou é inscrita numa tela; mas qual é a sua origem?, de onde provém o rasgo inspirado que como que antecipa a obra?

 

            Nisto pensa a Criança, olhando o largo tapete em ponto de arraiolos executado por artesãs e que permanecia como testemunho de uma vida de trabalho árduo: deus, trabalho e constância, num orar e trabalhar que se aproxima das quatro regras do ikigai japonês: primeiro, faz aquilo que tu amas; segundo, faz aquilo em que és bom; terceiro, faz aquilo que o mundo precisa; quarto, faz aquilo por que possas ser pago. Significando tudo isto que o indivíduo tem um propósito na vida. E, então, justamente, a Criança, pensando, percebe que a consciência é útil e permite a redenção. Talvez fosse em busca de uma redenção que fizera o trajeto até à Casa. O que acontecera, afinal, na sua vida nestes trinta e seis anos? O que às vezes sentia era que, durante esse tempo, a sua alma se tinha fragmentado em pedaços, estando cada um deles separado do todo que era o seu espírito e, por isso mesmo, sentindo-se perdida independentemente do sítio onde estivesse, porque lhe faltava aquela inteireza que só o espírito vestido da alma pode dar ao homem. E tinha sido em busca dessa roupagem que empreendera a viagem de regresso a uma origem que, afinal, não é já possível recuperar. É bem certo o ditado que diz, descortina agora, não regresses nunca aonde um dia já foste feliz. Parece ser uma verdade: no fundo, nada era já igual, nem tão pouco a Criança, também, era a mesma. O que procurava ou estava dentro de si própria ou não estava em lado algum. A luz que num tempo passado iluminara a Casa já há muito que estava perdida.

 

            O sol, a esta hora da tarde, já tinha mergulhado sob os telhados baixos das casas da aldeia; quando a Criança percebeu que era necessária uma decisão: ficar ou partir. Estas horas, desde o nascer do dia, tinham sido particularmente intensas e precisava de saber aquilo que devia fazer. Se regressasse, não regressava a mesma de quando partira hoje de manhã, com o fito de encontrar na Casa a resposta à sua questão sobre o sentido da vida; mas, se regressasse, neste momento, não levaria consigo uma solução para o grande mistério. Então pensou que um segundo no tempo do universo é como cem anos para um homem e que o seu anseio não tem uma resposta no tempo linear, mas, sim, no tempo psicológico e que a iluminação do que procura não acontece num passo a passo; é antes algo súbito e inesperado para o que não vale a pena correr.

 

            «O que aprendera, neste entretanto»?, interroga-se a Criança. O que poderá levar consigo, quando for o momento de partir?, parecia-lhe evidente que tudo aquilo que é material é transitório e que é aquilo que se escolhe que representa o âmago da realidade que se pode alcançar. Com tudo isto no pensamento, percebe que está apenas a exercitar a imaginação. Veio em segredo. Está na casa em segredo. Partirá em segredo também.

 

            Olha, de novo, para o tapete de arraiolos. Percebe que o tapete está no seu devido lugar. (Como de resto acontece com cada objeto da Casa). Apenas a Criança não sabe onde está o seu lugar certo no universo. Quando Deus criou o mundo, pôs em marcha um plano. E esse plano renova-se a cada momento. Talvez que criar com consciência seja um dom que nos pertence, a Deus e ao homem, e essa será a liberdade que nós temos na vida, diz para si própria a Criança, absorvida pelos desenhos geométricos do tapete. Afinal, tudo pode começar num sonho. E tinha sido a projeção de um sonho que a trouxera até aqui… contudo, tinha sido incapaz de dar o passo seguinte. Ou seja, não tinha sido capaz de desenvolver esse projeto em pormenor. Talvez tivesse sido um sonho insensato. Sair repentina e subitamente de casa. Abandonar tudo. Gozar vinte e um dias de férias. Duvidar até se um dia havia de regressar a Lisboa… faltava-lhe o estofo de um criador, pensa enfim. Tinha projetado um plano de grandeza e verificava, agora, que esse plano não tinha significado nem valor. E o significado faz parte do influxo da existência.

 

            Afinal, na Casa, a Criança tinha apenas estado a olhar para as coisas, como se estivesse a olhar para o mundo numa dimensão reduzida a uns quantos objetos que podia tocar e perceber. Tinha tido até ao momento uma atitude completamente passiva, como se cada coisa exercesse um poder sobre si própria. Em si mesmo, este facto não teria importância, se não afetasse a consciência que a Criança tem da realidade. Mas a verdade é que afeta. Ver não é o suficiente para criar em si um propósito. Algo mais se requer para alcançar um impulso criativo e poder libertar as dores aprisionadas do tempo presente. Numa existência quase banal, em que a Criança vive, ganhando o seu sustento, sem confiar nas suas capacidades. O trabalho difícil das artesãs que bordaram o tapete é um trabalho que se realiza no campo da consciência. O trabalho difícil para a Criança é ser capaz de perceber aquilo que quer da vida: caminhar com um propósito num imenso mar de possibilidades ou desistir mesmo estando no limiar de uma porta que se abre para o desconhecido.  

                       

 

 

 

  

sábado, 3 de maio de 2025

 6.

            Um vento suão, extemporâneo, fora de época, desceu à planície durante a tarde; e, como se os deuses batessem à porta, a cada rajada mais forte e quente, a Criança sentiu-se acordar do torpor em que nos últimos momentos mergulhara. Eram, agora, quinze horas, e pensou, vagamente, em fechar a janela que abrira na sua chegada para deixar entrar o ar e libertar o ambiente da Casa de uma atmosfera densa e pesada; contudo não o fez. O vento era suficientemente ruidoso, não para inquietar a Criança, mas para despertar nela o desejo de ação, que, na situação em que se encontrava, não podia ser senão uma ação do espírito, uma ação de natureza mental.

 

            Primeiro, fruto talvez do silêncio em que estava mergulhada interiormente, as primeiras duas palavras, «Salve Regina», afloraram na mente da Criança, e, como que num cântico harmonioso, apenas audível no seu cérebro, as palavras do hino tornavam sagrado o silêncio, que apenas era entrecortado pelas rajadas do vento; e, subitamente, a Criança percebeu que a «Mãe de Misericórdia», sua esperança, se tornava, em seu redor, algo vivo, que se materializava numa paz profunda, a circundar o espaço, e que a oração, em cântico, surgia, nessa melodia encantatória, em latim, e ia sendo repetida na sua mente uma, duas, infinitas vezes, como se desfiasse as contas de um rosário. E era justamente como «exsules filii Evae» que a Criança se sentia, neste que era e tinha sido um «vale de lágrimas» para tantos antes de si e para si mesma agora também. Mas a oração que no seu cérebro ouvia, belíssima melodia, como se fosse cantada por uma soprano de voz harmoniosa, terminava magistralmente num enlevo «O clemens, o pia, o dulcis Virgo Maria». O que era o suficiente para se sentir como que embalada num regaço de mãe e para sempre protegida, através de um hino que se traduzia em beleza e paz. E, de facto, não sabia dizer se era a melodia, ou se eram as palavras em latim, que ecoavam na sua mente, o que rompia esta solidão das pessoas comuns, como se uma companhia familiar se instalasse a seu lado, e a compreensão e o medo da morte se tornassem desnecessários («Ah, não tenhas medo de morrer» era a tradução que fazia das palavras fragmentadas que a sua mente relembrava na distância de trinta e seis anos talvez, quando, na infância, as escutara e cantara… e quase, neste momento, não era capaz de se lembrar da sua própria idade – sete, catorze, cinquenta anos? – tinha talvez, estranha mas absolutamente, vencido, por instantes, a barreira do tempo e era indiferente saber quantos anos tinha).

 

            A Criança deslizou sem esforço para onde a mente já não era necessária; já não havia o hino cantado no seu cérebro; e à sua volta podia perceber que o vento parecia sossegar, não sendo tão ruidoso. Algo ténue regressou com a Criança ao espaço da Casa. Seria uma presença viva de quietude que, tanto quanto se conseguia lembrar, sempre estivera presente na Casa; num tempo que era anterior ao advento da tecnologia, em que, agora, se quisesse, numa simples pesquisa na internet, tudo, ou quase tudo, poderia ser encontrado, sem colinas nem vales. A internet era, antes, um longo planalto, longe da paz eterna. E, neste hiato, em que saía da sua mente para regressar ao seu ponto de referência, sentia que ela, a mente, deixara como que uma pegada, um sinal visível, de que o silêncio está na origem de todas as coisas, visíveis e invisíveis.

 

            Precisava, agora, de continuar a explorar o espaço da Casa. A Casa não era um espaço vazio. Repleto de objetos e de mobiliário antigo, a Criança encontrava aqui, neste local, os sinais de que o vazio puro não existe. Lá fora, o tanger dos sinos continuava a sinalizar a passagem do tempo numa cadência constante e, talvez por isso, despertou a atenção da Criança um antigo relógio de pêndulo pendurado numa das paredes da sala. Naturalmente, estava parado. E, desse modo, se podia entender que, ao entrar na Casa, a Criança tinha acedido a um tempo sem tempo, como se pudesse assistir ao desaparecimento de uma pedra, de uma flor, de uma estrela ou de uma galáxia ou ao seu inverso. Ou seja, o ponto a partir do qual tudo brota e nasce – a pedra, a flor, a estrela, a galáxia.

 

            Então, como que procedendo a um ritual, procurou uma cadeira para poder chegar à altura do relógio, pendurado alto na parede. Subiu para cima da cadeira e pôde, desta forma, admirar melhor esta peça de arte trabalhada em madeira antiga. Abriu a porta de vidro e encontrou a chave de dar corda ao relógio no interior da caixa. O mecanismo era em metal e o pêndulo inerte era um objeto de rara beleza. Resolveu acertar os ponteiros. Consultou o seu relógio de quartzo, peça mais exata na medição do tempo, e verificou que eram cinco horas da tarde, menos quatro minutos. Pareceu-lhe irrelevante contar com os quatro minutos que faltavam para as cinco horas e acertou os ponteiros na hora certa e deu corda ao relógio. Todo o mecanismo começou a funcionar e o pêndulo balançava à cadência exata do tempo que o relógio media. Eis como funciona o relógio. Fechou a porta de vidro. E arrumou a cadeira junto à mesa da sala de jantar. O compasso do pêndulo do relógio era audível na casa.

 

            Na verdade, percebia, agora, a Criança, que o mais profundo dos silêncios tinha sido rompido por esta cadência ritmada do som do relógio a funcionar. Já não havia senão brancura à sua volta. Também na sua mente era assim. Os pensamentos corriam e sucediam-se uns aos outros como se divagasse e a pergunta era «Queres aprender o quê»? De facto, a partida abrupta de Lisboa evidenciava uma urgência em encontrar uma resposta para si mesma em relação à sua existência. E, neste momento, parecia-lhe que tudo era apenas um processo mental, independentemente do sítio onde se encontrasse, «Ou não seria assim»? «Poderia ser diferente»?

 

            Havia agora um hiato no tempo – as horas do tanger dos sinos, as horas do relógio de pêndulo, as horas do seu relógio de quartzo. Qual então a hora certa, a hora de partir ou de chegar. A hora de permanecer, até quando?




quinta-feira, 3 de abril de 2025

5.

            São farrapos de tédio o que a Criança sente neste momento, como se em si mesma assentasse uma roupa já gasta e inútil. E, por um brevíssimo fragmento de tempo, que não poderia nunca precisar, ficou mergulhada num túnel afunilado e comprido, onde ao fundo se divisava uma luz brilhante, com a claridade de um dia belo de verão, e pareceu-lhe ver o rosto da Avó muito jovem. Mas era, afinal, um rosto numa fotografia o que tinha na mão e para o qual olhava fixamente.

 

            Na Casa, encontrara, dentro de uma gaveta de um dos móveis antigos, uma caixa de cartão cheia de fotografias. Eram retratos tirados alguns deles há cerca de cem anos atrás; quando cada fotografia tinha o valor de uma pequena obra de arte, estudada a pose, o cenário e o vestuário dos indivíduos retratados. E ali se testemunhavam as etapas de vida de cada um dos habitantes da Casa, serenos e imóveis, por toda a eternidade. Aquilo que se fixa num papel repercutido por infinitos amanhãs pareceu-lhe ser uma espécie de paisagem visível do passado, alegre ou triste, dependendo de quem a olha. Parecia-lhe uma coleção de imagens do google e, sem legenda, tornava-se muito difícil saber quem era quem e que relação de parentesco havia entre as diferentes pessoas nos retratos – seriam Pais, Irmãos, Tios, Primos, Avós, Bisavós – mas o certo é que à distância no tempo já não era possível identificar todos eles. Talvez também na morte seja assim. Perde-se a personalidade, o que o ser foi, e o que resta é o espírito, o que o ser é.

 

              As fotografias eram, afinal, como que o mapa de uma outra vida. Uma existência anterior à da Criança, que ela já não podia moldar no presente, porque a morte se entrepunha entre ela e todos os seres que agora pertenciam ao passado. Não há uma linha contínua que possa conduzir a Criança neste seu propósito de encontrar uma realidade única. Trata-se, afinal, através dos retratos, de um domínio subtil, que um mistério ensombra; e que é impossível desvendar. Por momentos, pareceu-lhe que teria sido melhor ter deixado as fotografias seladas dentro da caixa fechada, pois não era possível penetrar nesta escuridão, como que acendendo uma vela para iluminar o que antes de si fora. É um cenário desconcertante – os retratos espalhados em cima da mesa de jantar sem um lar, abandonados para sempre na eternidade da sua alma – que a Criança teme, mas que, de certa forma, a prepara para o que a espera também a si, quando não for senão, para os outros, uma imagem anónima numa película de papel, fechada numa caixa de alguém que também, por sua vez, já partira. Antes os ossos como memória, numa fidelidade à vida. Mas, de facto, se ver é o ato supremo da criação, talvez que esta arte do instante desenhe uma infinita realidade que seja o ponto de travessia entre a vida e a morte.

 

            Almoçara há uma hora atrás. Trouxera umas sandes, que comprara no caminho e tinha água. Para já, isto era o bastante; mas precisava de decidir o que fazer no dia seguinte, sábado, portanto, dia propício para se abastecer do que fosse mais necessário. Isto, se o seu propósito for o de ficar durante vinte e um dias. Por enquanto, a Criança não pretende dar sinais da sua presença na Casa às Primas que ainda habitam na aldeia. Trata-se de uma permanência quase furtiva que quer manter até ter uma decisão tomada. De novo, se apercebe, nitidamente, do toque dos sinos. São duas horas da tarde. Os retratos ficaram espalhados em cima da mesa como se fossem os arcanos maiores de um baralho de cartas de tarot. «O que vaticinam»?, interroga-se a Criança. E quase lhe apetece baralhar e dispor num lançamento divinatório aquelas imagens, procurando entender quais podem e devem ser os seus próximos passos na vida. Seria algo como receber a antiga sabedoria de uma tradição através de histórias que lhe fossem contadas pelas fotografias, se ela fosse capaz de desvendar a simbologia de cada uma das figuras.

 

            A verdade da realidade que a Criança está a viver, neste momento, vai muito para além de uma visão meramente materialista do mundo e abre a sua mente para um universo impregnado de consciência e de espírito de vida. Parecia esquecer-se do motivo da sua viagem até à aldeia – saber que destino dar à Casa que recebera de herança. A Casa era como um tesouro sagrado, que continha em si mesma tanto os mistérios da vida como da morte. E, nisso, e, por isso, a Criança se sente transformada, tal como pela ação de uma paixão a sua mente inquisitiva lançasse uma inigualável luz sobre os recantos escondidos da memória, agora que, passados trinta e seis anos, regressava à Casa da aldeia da sua infância e juventude. Era como se se libertasse de uma prisão que durante décadas lhe tivesse tolhido a liberdade e, agora, reencontrasse a coragem para vencer os seus medos. Mas, afinal, o que é que procura?, na verdade. Talvez seja algo que perdeu há muito tempo atrás que é um sentimento de pertença a algo, um milagre de ter um chão e umas paredes caiadas de branco que a acolham como que dizendo, «Tu és uma Criança muito amada e para sempre te protegemos». Contudo, não é isso aquilo que está a sentir desde que chegou. À Casa, perdida por entre o casario da aldeia, falta a luz daqueles que antes a habitaram. A paixão da sua jornada parecia extinguir-se fatalmente condicionada pela frieza do espaço da Casa.

 

            «E se a perfeição das coisas fosse, afinal, este sentimento de abandono e solidão»?, interroga-se a Criança falando em voz alta para si mesma. «E se a perfeição das coisas só existisse quando somos sós»?, «e distantes do que amamos», acrescenta.

 

            Regressou, entretanto, à mesa de jantar onde deixara espalhados os retratos. O que fazer deste espólio que agora lhe pertencia parecia ser o grande desafio do momento. Parou para pensar. Vagamente as mãos da Criança vaguearam de novo pelas imagens, misturando tudo. O melhor seria guardar as fotografias devolvendo-as ao lugar onde as encontrara, dentro da caixa, dentro da gaveta do móvel.

 

            Assim fez, e a Criança pensou, «eis duas caixas fechadas – a da vida e a da morte – o que eu tenho ante mim».

  

sábado, 30 de novembro de 2024

 4.

            Os deuses tecem o manto que é a vida de cada homem. Quando a trama chega ao fim, o ser confronta-se com o mistério da morte. Ninguém sabe o seu dia nem a sua hora de passagem; apenas aqueles que tudo veem conhecem o destino e o momento. Nisto, acreditava a Criança, e, desde há trinta e seis anos, que a sua mente labutava no sonho que tivera, na precisa madrugada da morte da Avó. Fora um sonho incomum, por ser muito nítido e com elementos muito precisos. Habitualmente, os sonhos que tinha desvaneciam-se, quando acordava, perdendo-se a memória daquilo que fora sonhado. Sempre era assim. Mas, naquela madrugada o sonho fora muito diferente. Ficara como uma marca indelével no seu espírito para sempre.

 

            «E, se eu for uma personagem numa história»?, pensa, agora que evoca de novo a grande sala (muito grande, como no espaço de uma catedral antiga com paredes revestidas de madeira escura), onde algumas figuras estão presentes. Primeiro, num plano mais próximo, duas jovens, vestidas de cores claras, executam o entrançado de duas colchas, dispostas no chão. São mantos muito compridos, que vão sendo trabalhados pelas duas raparigas, cada uma delas debruçada sobre a extremidade da sua colcha no chão. Assistindo a este trabalho de execução, num outro plano, mais afastado e mais elevado, encontra-se um padre, sentado numa cadeira alta, e rodeado de acólitos, como que presidindo a esta espécie de cerimónia. Para além destes, está também, distintamente presente, a Criança. Encontra-se no mesmo plano das duas jovens que executam as colchas, numa espécie de cochia lateral de bancos de madeira escura e também ela assiste ao trabalho de execução das colchas que é o motivo central deste episódio. A dado momento, como tendo terminado a sua tarefa, as jovens dizem «tudo está consumado» e a Criança desperta, na madrugada, com um sentimento de que assistiu a um evento muito significativo na sua vida. Este sonho e tudo aquilo que ele contém ficará para sempre consigo; justamente, porque na manhã desse dia o telefone tocou anunciando duas mortes. Morrera a Avó e, inesperadamente também, morrera, nessa mesma madrugada, um Primo. «Por quê, duas mortes quase coincidentes e quase em simultâneo e, aparentemente, sem qualquer espécie de relação entre elas»? Ninguém sabia explicar. A ninguém contou acerca do seu sonho na noite; mas, então muito jovem, teria cerca de catorze anos, não conseguia esquecer este evento como algo que deixou abalada a Criança em termos do aspeto dramático ou quase romanceado da vida - «Se eu não sou a autora da minha história, quem é»?, pergunta-se a si própria a Criança neste momento da sua existência.

 

            A Criança desligara, entretanto, a telefonia e a Casa regressara a um silêncio sepulcral – a mesma espécie de silêncio, acredita, que se terá feito sentir naquela longínqua madrugada, em que a Avó, no sono de uma noite, deixara de ver tecida a história da sua vida para fazer a travessia sagrada. «E foi justo que assim fosse», pensa, «pois é durante a noite, no sonho, que cada um de nós percorre os caminhos da morte». E o momento exato não é um pouco mais cedo nem um pouco mais tarde; é, sim, o instante em que o coração, cruzando uma ténue linha invisível, para, despojado para sempre dos laços e dos afetos que o prendiam à realidade material de uma existência física.

 

            E, agora, vê o seu lugar aqui na Casa, mais uma vez, como o lugar de alguém que percorre o seu tempo terreno, na senda de todos quantos antes dela passaram neste mundo e dele se despediram no espaço destas paredes muito brancas e, pensa, «sempre silenciosas». Mas, ao mesmo tempo, percebe que a realidade atual é de outra natureza. Morrer na Casa não se compadece com o que é mais comum – morrer num hospital – e, nisso, o seu destino final não poderá ser muito diferente do da maioria das pessoas, ligadas a máquinas e a aparelhos eletrónicos que monitorizam a última respiração e a paragem no funcionamento dos órgãos principais. E é bem verdade que ninguém morre de mão dada. A morte é uma experiência individual e apenas pessoal – não admite um «nós». Contudo, e isso era curioso, no sonho longínquo daquela madrugada de há trinta e seis anos atrás, dois mantos se teciam e se concluíam no mesmo exato momento como que fossem tecidos dentro de uma consciência superior que optasse por construir, assim, um destino final coincidente. Era estranha e incomum a aparente mensagem do sonho, e nisso, no seu sentido, não podia, hoje, deixar de pensar.

 

            Mas a morte alarga os limites do espaço até ao infinito – por isso, talvez, que o lugar onde se morre seja relativamente secundário e que o que verdadeiramente tenha importância seja a atitude com que morremos, ou seja, que consciência, ou ausência dela, levamos connosco para a morte. «Tudo será como deve ser», pensa a Criança. «Talvez que no paroxismo da morte a consciência do ser por um instante se eleve a alturas inconcebíveis e que o tempo que aí, então, é substituído pela intemporalidade, nivele na grandeza todos os seres. E, por momentos, os temas mais profundos da existência, como a verdade, a compaixão, o amor, a justiça se tornem equivalentes e indestrinçáveis».

 

            De novo, a Criança ouve o tanger dos sinos da igreja da aldeia. Curiosamente, desde que se encontra dentro da Casa, tornou-se mais audível e sonora cada badalada. Os sinos assinalam com toques diferentes a passagem do tempo e fazem-se soar dia e noite de quinze em quinze minutos. São como um compasso de espera até à hora seguinte. E, na aldeia, há um verdadeiro livro das horas, lembrando a cada um que é o tempo certo de realizar qualquer uma das tarefas do dia ou da noite. É meio-dia e três quartos. É a altura certa para pensar fazer uma ligeira refeição e passar em revista os objetos da Casa e, principalmente, definir aquilo que pretende fazer nas próximas horas, ou nos próximos dias. Não deve esquecer que está no gozo de vinte e um dias de férias e que, deste modo, tudo na sua esfera pessoal é legítimo e permitido. Pode, de facto, ficar na Casa; pode, de facto, regressar hoje mesmo a Lisboa. O que pertencer ao seu destino se há de cumprir, como até hoje se cumpriu cada uma das suas ações. Mas o que é certo é que, pela primeira vez, em trinta e seis anos, se sente completamente livre em termos de escolhas. Nada nem ninguém condiciona a Criança. A ninguém tem de dar conta daquilo que decida fazer neste momento da sua vida. E, nesta forma de liberdade, parece-lhe que tudo será como deve ser e que as suas escolhas serão justas e boas, como se o próprio tempo, ou a sua intemporalidade, lhe sussurrassem «aqui espero».